Nos últimos anos a palavra “orgânicos” tem crescido de forma consistente no vocabulário da população brasileira. Produtos, principalmente alimentos, mas também bebidas, cosméticos e até tecidos, que são produzidos sem agrotóxicos e fertilizantes químicos, que podem ou não ter a certificação oficial de produto orgânico, têm chegado às prateleiras dos supermercados, feiras e lojas especializadas.

Está mais fácil encontrar produtos orgânicos e cada vez mais produtores rurais estão adotando a prática de cultivar suas frutas, verduras, legumes e outros produtos sem utilizar os defensivos agrícolas e oferecê-los a um público cada vez mais interessado em consumir alimentos mais saudáveis. Mas um problema ainda persiste: os produtos orgânicos são mais caros que os produzidos de forma industrial, utilizando pesticidas, fertilizantes e sementes geneticamente modificadas. A explicação é econômica, e simples: os orgânicos têm uma produtividade menor e demanda mais mão de obra no cultivo, justamente por dispensar os aditivos químicos que permitem à agricultura industrial produzir grande quantidade de alimentos a um custo muito baixo. Por isso os orgânicos são, em média, 40% mais caros no Brasil do que seus equivalentes não orgânicos. Certos produtos, como o açúcar, podem chegar a ser 200% mais caros.

Mas a boa notícia é que dá para abaixar o preço dos orgânicos a um nível em que eles sejam competitivos. O jeito mais fácil de conseguir isso é eliminando ao máximo os intermediários entre o produtor e o consumidor final. Assim, as feiras onde os agricultores levam seus produtos para vender diretamente ao público são ótimas opções e costumam ter os melhores preços. Outra opção que tem se difundido é juntar um grupo de interessados em comprar os orgânicos e fazer um grupo de compras coletivas, negociando diretamente com um produtor uma cesta semanal entregue para o grupo, por exemplo. O consumidor tem papel fundamental, pois com mais gente disposta a comprar os orgânicos, o mercado se fortalece, mais produtores investem nesse tipo de produção e, com o aumento da produção, os preços também caem.

E no final de maio, foi inaugurado na Vila Madalena, em São Paulo, um espaço que tem chamado a atenção por radicalizar o conceito de acessibilidade econômica dos produtos orgânicos: o Instituto Chão, que reúne mercearia e café com produtos orgânicos e artesanais, vende tudo a preço de custo, sem botar um centavo a mais em cima do valor pago ao produtor. É uma ideia que parece a princípio maluca e insustentável financeiramente, mas o grupo de sete sócios que tocam a empreitada garantem que, embora seja uma proposta experimental, ela pode dar certo e garantir a eles o suficiente para manter o espaço e tirar o seu sustento.

Fonte: Rotaveg

 

Funciona assim: quem vai à loja do Instituto Chão, que fica na Rua Harmonia, 123, na Vila Madalena, paga o preço de custo em todos os produtos vendidos, mas pode colaborar com a iniciativa de duas formas: fazendo uma contribuição voluntária em dinheiro que pode ser acrescida ao preço final da compra, ou se tornando um “aliado” do Instituto, através de uma contribuição fixa mensal de R$ 60. Para abrir o espaço, eles também fizeram uma campanha de arrecadação via crowdfunding que levantou R$ 40 mil. Um quadro negro no espaço deixa a mostra de todos o balanço financeiro de gastos e receitas do Instituto, refletindo a filosofia de transparência total do grupo.

Muito bacana, né? Com menos de dois meses de atividade, o Instituto Chão já ganhou destaque na mídia e o espaço está sempre cheio nos quatro dias por semana em que fica aberto (quarta a sábado). Nos outros dias, eles recebem os produtos, organizam o estoque, fazem as contas e planejam os próximos passos em reuniões nas quais não há hierarquia: todos os sete sócios tem o mesmo poder de decisão, de maneira horizontal, e não há funcionários contratados. Por enquanto, o movimento e as vendas estão indo bem e eles têm esperanças de que em breve a sustentabilidade financeira chegue, mesmo sem lucrar em cima dos produtos vendidos. Torcemos para que eles consigam e esse novo modelo para a venda de produtos orgânicos se consolide, junto com as outras formas, como as feiras e clubes de compra coletiva, para que os orgânicos definitivamente encontrem sua sustentabilidade econômica. O futuro é orgânico!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima